| Gastronomia
mediterrânea ajuda
a prevenir doenças do coração
*Fotos
Ilustrativas
Uma
alimentação saudável não cura uma doença,
mas certamente ajuda a reduzir a possibilidade de contraí-la.
Você acreditaria que uma dieta na qual pode-se comer pão,
queijo, carnes, ovos e ainda por cima beber vinho todos os dias
ajuda a prevenir doenças do coração, os cânceres
de cólon e de seios, mantém baixos os níveis
de colesterol e controla o seu peso?
Sim,
ela existe, e há mais de quatro mil anos, na região
do Mediterrâneo. Um prato típico desta culinária
pode conter apenas 8% de gordura contra 25% ou até 35% nas
refeições comumente consumidas em outros países
ocidentais e do Leste Europeu . "A grande vantagem da dieta
mediterrânea é que ela tem baixos níveis de
gordura saturada, isto é, carece de carnes vermelhas e produtos
lácteos gordurosos", afirma Maria Lúcia Garcia,
presidente da Associação Paulista de Nutrição
(Apan). Na representação da pirâmide nutricional
da dieta (veja abaixo), as carnes estão no topo, o que significa
que seguidores desse regime alimentar consomem esporadicamente carnes,
uma vez ao mês.
Quanto
ao clichê de que o consumo diário de pães e
massas engorda, alimentos básicos na gastronomia mediterrânea,
Garcia contesta: "pão e massas provêem de cereais,
ricos em carboidratos, e não de gorduras animais". Cada
grama consumida de proteína produz quatro gramas de calorias,
enquanto que cada grama ingerida de gordura transforma-se em nove
de calorias. "As massas são imprescindíveis porque
fornecem bastante energia ao corpo, com baixa caloria. Nosso organismo
necessita de 60% de energia, que vem na forma de hidratos de carbono
presentes em massas e pães", acrescenta Garcia.
Os
pilares que sustentam os benefícios da dieta mediterrânea
são o azeite de oliva, o trigo, as verduras e os legumes.
O consumo de azeite de oliva, por exemplo, que é um ácido
gorduroso monoinsaturado, normaliza a taxa de colesterol no sangue,
e, por consequência, inibe a formação da placas
de gordura nas cavidades arteriais, o que reduz o risco do aparecimento
de alguma doença cardiovascular.
Alguns
ingredientes típicos da região do Mediterrâneo
são importados pelo Brasil, mas aqui têm um preço
elevado. Garcia sugere, por exemplo, que o azeite de oliva seja
substituído por óleos de canola e girassol, que carecem
de gordura saturada como o azeite.
Queijos
e iogurtes devem ser consumidos à vontade, mas não
todos os tipos. "É preferível comer queijos magros,
como a ricota, que tem pouca gordura", afirma Garcia. Quanto
à carne de porco, vale o mesmo princípio da vermelha:
ingeri-la esporadicamente "e, de preferência, partes
com poucas gorduras, como o lombo ou o filé mignon",
afirma Garcia. O vinho tinto, que traz benefícios na circulação
do sangue e é um dilatador cardiovascular, deve ser consumido
diariamente com moderação, como acompanhamento das
refeições.
A
presidente da APAN diz que seria "bastante benéfico
para o país que a nossa alimentação fosse inspirada
na dieta mediterrânea". O hábito alimentar do
brasileiro, centrado no consumo quase diário de carne vermelha,
ganharia em qualidade e economia. "Diante das dificuldades
econômicas que a população passa no dia-a-dia,
a troca de carnes de vaca e de porco por galinha e peixe seria benéfica
para a saúde", conclui.
Estudos
na Universidade de Bordeaux, na França, em 1997, provaram
que a alimentação com base na dieta mediterrânea
pode prevenir em até 70% o risco de um segundo ataque cardíaco.
O trabalho com 600 pacientes concluiu que a dieta é muito
mais eficiente do que uma dieta considerada convencional na prevenção
de ataque cardíaco e morte após um primeiro infarto.
A
dieta convencional é rica em ácido linoléico
(uma gordura poliinsaturada presente nos óleos vegetais de
milho, soja, girassol e margarinas) e a dieta mediterrânea
tem mais ácido oléico (gordura monoinsaturada presente
no azeite de oliva e no óleo de canola).
Os
pacientes que se alimentaram por meio da dieta mediterrânea
por 27 meses tiveram uma incidência de infarto e morte 73%
menor do que os que receberam a dieta convencional. O efeito protetor
começa a ser observado dois meses após o início
da dieta, o que sugere um efeito de prevenção na formação
de trombos (coágulos) que bloqueiam totalmente a coronária.
Em
outras pesquisas, tanto os ácidos graxos ômega 3, como
os folatos, antioxidantes, proteínas vegetais e outras substâncias,
presentes nos peixes, legumes, frutas e cereais, indicaram redução
dos níveis de colesterol.
A
Associação Americana de Cardiologia, porém,
reconhece que a incidência de doenças cardíacas
na região do Mediterrâneo é menor do que nos
EUA, mas que outros fatores, como o estilo de vida, têm de
ser levados em conta na análise de seus benefícios
à saúde.
A
pirâmide da dieta mediterrânea foi desenvolvida após
estudo realizado em 1960 sobre as tradições alimentares
da ilha de Creta, na Grécia, e do sul da Itália. Os
pesquisadores, na época, identificaram uma menor taxa de
doenças crônicas e maior expectativa de vida dos habitantes
destas regiões e avaliaram que a alimentação
era fator importante na prevenção de doenças.
Variações
desta dieta existem em todos os países banhados pelo Mediterrâneo.
A pirâmide não é fundamentada somente no peso
ou na quantidade de calorias que os alimentos contêm. Mas
na combinação das porções a serem ingeridas
e na indicação de quais comidas favorecem o estilo
da dieta do Mediterrâneo.
Fonte:
Folha Online / Jorge Blat
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